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Atualizado em 31/01/2017

Toninho Santos Filho De Pedro – Edgar Antunes Pereira

Doutor Pedro foi prefeito de Montes Claros por duas vezes.  Minhas lembranças dele são  de um senhor alto, magro, médico, extremamente gentil e rico muito rico. O homem jogava dinheiro para cima.

O conheci, sobretudo, por ser pai de Toninho Santos, colega de primário do meu irmão Orlando e meu contemporâneo e amigo no Colégio  Imaculado Conceição.

Morava, então, na rua Doutor Santos, quase na esquina com Dom João Pimenta, numa casa grande com varanda lateral, se não me falha a memória, onde havia pendurado um saco de areia, saco de pancadas, para o treino de boxe. Pedro me fez calçar luvas, trocar socos com o Orlando e nos ensinou noções preliminares de boxe. Para quem não sabe, ele foi  um dos maiores  esportista brasileiros, vice-campeão sul americano de atletismo. Como jogador de futebol, defendeu as cores do Fluminense e Botafogo. 

Conheci, quando morava em Uberaba, um colega seu, o também médico,  e amante do futebol, Nariz, apelido de Álvaro Lopes Cançado, que, pelo Botafogo, foi duas vezes campeão carioca, titular da seleção brasileira de futebol jogou a copa de 1938.  Álvaro foi um grande amigo e admirador de Pedro,  sabedor da minha origem montesclarense sempre que o encontrava enchia-me de perguntas sobre o amigo Pedrão. Jogaram juntos no Fluminense.

Obrigatoriamente, na saída do Imaculada, eu e Toninho, subíamos o Beco do Padre Marcus onde morava Seu Hermínio pai de sua esposa Leninha, seu tesouro, e de uma penca de gente boa, todosestudavam Imaculada, acho que foi lá que começou o namoro. Prosseguíamos pela rua  Pedro II, na Doutor Veloso, eu pegava a direita até o numero 760, nossa casa. Toninho seguia em frente até a Doutor Santos, freqüentemente eu o acompanhava naquele trecho e as vezes chegava ate sua casa.

Em uma dessas idas me  lembro do doutor Pedro adentrando  à sala com  um mundo de dinheiro na mãos e falando, ao atirar para cima as cédulas do velho cruzeiro, que já foi novo, cruzado, cruzado real, até fixar  o nome  real: Tô rico, tô rico! Nunca tinha visto tanto dinheiro. Nunca mais esqueci.

Mudei de Montes Claros aos onze anos, voltei aos trinta e quatro, neste interregno perdi parte da sua história social e política. Pedro, assim como meu pai, faz parte de um elenco especial de políticos, mitos populares, que com suas ações alcançaram a eterna admiração e respeito do povo. Seus causos hilários, muitos como sói acontecer de criação popular, outros verdadeiros  são até hoje contados e relembrados. Não os testemunhei, mas tive conhecimento de alguns causos, por narrativas, bem  pitorescos.

Dr. Mauricio  me contou,  rindo,  da incrível capacidade de  Doutor  Pedro  reverter situações desfavoráveis.

Na disputa eleitoral à prefeitura de Montes Claros aconselharam-no, Mauricio,  ir a zona rural onde estaria fraco segundo os analistas da  época. Tinha, então, que agir rápido, preparar uma estratégia para aniquilar todas as chances de Pedrão, com quem disputava, no interior matuto do município. A melhor forma seria  usar de seus conhecimentos profissionais e atender a população carente em cuidados médicos. Vestiu-se a caráter, jaleco e sapatos brancos, reuniu os aparelhos, estetoscópio, dependurado ao pescoço, aparelho de pressão, luvas para demonstrar o cuidado em não transmitir nada de um paciente para outro e, no consultório improvisado,  uma bacia de água limpa e sabonete para a assepsia das mãos.

Assim fez, atendia de madrugadinha até tarde da noite. Levou dias nesta labuta  de tanta gente que apareceu, afinal era médico famoso  de graça. Fazia parte de a sua estratégia atender a todos e assim comprometê-los. Não deixar um voto sequer para Pedrão. Nos arredores e na currutela escolhida, não me recordo o nome, para o atendimento médico o assunto era só o Doutor Mauricinho e sua elegância. Não ficou vivalma sem atendimento, exames e amostras grátis.  Coitado de Pedrão...

Eleição. Apuração, nas urnas só deu Pedro Santos, ganhou disparado na zona rural, embora o trabalho de Maurício tivesse sido gigantesco e sua vitória antecipadamente cantada por todos.

É que Doutor Pedro sabendo o sucesso que fez Maurício na zona rural tratou logo de desfazê-lo. Calado, sem estardalhaço, sem nada da parafernália  médica. Apenas ele e o aparelho de pressão foram descontar o prejuízo.

Atendia, debaixo de um tamarineiro, o povo. Media  pressão, encostava os ouvidos nos peitos dos pacientes para auscultar os ruídos esclarecedores da respiração e dos  batimentos cardíacos. Mandava tossir, falar trinta e três, batia o martelinho nos joelhos e cotovelos, distribuía  amostras grátis de vermífugo  e pronto. Atendeu poucos, Mauricio já tinha feito o estrago.

Os moradores locais estranharam o procedimento sem o uso do aparelhinho ligado aos ouvidos, das luvas, da lavação de mãos. Procedimentos e cuidados que Dr. Mauricio  usava e perguntaram-no o porquê.

A resposta veio de pronto: é que eu, contrário de Mauricio, não tenho nojo do povo e que aquele aparelhinho  era para  evitar por o ouvido direto no peito e nas costas de vocês. 

A noticia que o Doutor Mauricio tinha nojo do povo espalhou-se que nem rastilho...  Pedro ganhou a prefeitura.

Andando com meu pai, em época política, eleição para prefeito, na Praça do Mercado, sou tradicionalista, em frente o bar do Zé Piriquitinho, onde reuniam os ruralistas, comerciantes, agiotas, profissionais de toda espécie para se ter noticias frescas dos últimos acontecimentos da cidade. Ele me chamou a atenção, aos risos, para a faixa que se estendida de um flamboyant a outro.  Via-se pintado  um sinal de positivo, mão fechada e polegar estendido para cima, com um detalhe hilário, o polegar estava inchado, vermelhão e aferroado por  marimbondo. Não entendi. Explicou meu pai que o maribondo era a representação dos eleitores de Pedrão e o sinal positivo simulava o apoio a Toninho Rebello. Eram os marimbondos ferroando os  adversários.

Doutor Pedro Santos foi o médico dos pobres, atendia a qualquer hora a todos que o procurasse. Não o fazia por popularismo, fazia-o por bondade, por generosidade. Filas em seu  consultório dobravam quarteirões. Fez da sua velha rural ambulância.

Foi, principalmente, um homem simples, bom, digno, honesto. Coisas de seu caráter  que eu  tinha conhecimento.

Surpreendeu-me, até pelo interregno de tempo que fiquei ausente de Montes Claros, foram os feitos de Pedrão como prefeito, que tomei conhecimento ao ler a entrevista de Toninho Santos à revista TEMPO.  Onde coloca com veracidade as situações vividas por seu pai e lista de suas realizações como administrador público, tais como, o asfaltamento da Avenida Geraldo Ataíde para o aeroporto,  a implantação distrito industrial, o inicio das obras saneamento do rio Vieira,  a aquisição do terreno onde deveria ter sido construído o Mocão, sua presença e apoio e participação na implantação do sinal de TV na cidade.

Foi na sua gestão que o grupo escolar municipal Dulce Sarmento foi transformado em colégio,  anseio de toda a cidade. Cedeu o hospital municipal  para a Unimontes iniciar suas atividades universitárias. Implantou o transporte coletivo, além de gestões que culminaram com a construção do novo aeroporto e a implantação dos Batalhões da Policia Militar e do Exercito. 

Toninho Santos trouxe à memória atual a face empreendedora de seu pai, um dos maiores políticos locais.

Faz justiça.

 

(*) Jornalista

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