ÁREA DO ASSINANTE






Atualizado em 16/11/2016

Doce passado, amargo presente - George Nande

Há alguns meses, durante a inauguração do ginásio no Vera Cruz, reaproveitando a antiga quadra construída nos anos 1980, um filme passou na nossa cabeça. Quando nos mudamos para aquele bairro, ele ainda estava sendo loteado, havia uma casa aqui, outra acolá, um grande pântano cortando ao meio a sua territorialidade e um arrodeado de moradias numa área antes conhecida como Santo Antônio. O pântano em questão era o Ribeirão do Cintra, onde a garotada nadava nas águas ainda limpas daquele curso, que hoje é conhecido como Córrego do Cintra. Próximo à antiga Siom, havia um trecho do rio chamado Tanquinho, aonde ensaiávamos as nossas primeiras braçadas.

Cortado pelo Ribeirão do Cintra, o Vera Cruz sempre fora dividido e, com o passar dos anos, a rivalidade entre os dois lados foi aumentando, como se o curso d’água fosse o Muro de Berlim. Tinha o Vera Cruz do Alto São João e o Vera Cruz do Esplanada do Aeroporto, bairros vizinhos que serviam de referência para aquele que começara a ser loteado nos anos 1970. Antes, tudo aquilo era uma fazenda e, durante um longo tempo, gados e eqüinos eram companheiros constantes dos moradores. Do lado do Vera do Cruz do Alto São João havia um campinho de grama verdinha em frente à casa do senhor Adão Lopes, aonde a bola rolava a todo o momento, entre um banho e outro no Tanquinho.

Do lado do Vera Cruz do Esplanada tinha uma bela chácara, alvo de alguns garotos, que atravessavam o rio, pulavam a cerca de arame e se arriscavam para apanhar frutas no pomar. Os nomes dos donos nunca entraram em nossa cachola, mas não gostavam dos “assaltos” a seus quintais. Nunca fomos desse negócio de aventura e, por isso, não corríamos riscos de levar um tiro de chumbinho ou qualquer coisa assim. O máximo que fazíamos era alimentar a rivalidade entre a garotada dos dois lados do bairro. No meio do pantanal, entre as tabuas, havia enseadas onde eles armavam arapucas para apanhar passarinhos.

Na surdina, quebrávamos as armadilhas. Os meninos de um lado achavam que tinham sido os do outro. Pronto: estava declarada a guerra de estilingues e, vez ou outra, de uma troca de sopapos ou inocentes vinganças, sem maiores conseqüências. Até que um dia fomos descobertos. Aí o bicho pegou para o nosso lado. Afinal, as duas “facções” queriam tirar umas casquinhas na nossa pele por causa da ousadia. Acreditamos que os deuses dos passarinhos nos tiraram daquela enrascada, porque não gostávamos e ainda não gostamos de inocentes aves engaioladas. Quantos cascudos levamos? A memória não ajuda. Deus nos livrou daquela e escapamos ilesos. E os dois grupos em paz.

Fato é que o tempo foi passando, nos amadurecemos, tornamo-nos adolescentes e o futebol continuou a ser a nossa “verdadeira profissão”. Estrelinha, Esporte e Guarani foram alguns times criados no Vera Cruz. Mas um viria a se tornar lenda: o River Cruz. Muitos questionavam por que não Vera Cruz? Porque no Alto São João já havia o Vera Cruz do lendário José Mário Xavier. O escudo, idealizado pelos saudosos Jandiro Rocha e Edemir Ribeiro (Deminha), Zé Tanginha, Gêra, China e Cia. era o formato de uma engrenagem. E não é que o clube auri-rubro-negro engrenou e fez fama na cidade!?

Todo mundo queria jogar no River Cruz, dono de uma torcida fanática, que acompanhava o time em todos os lugares, longe ou perto, com sol ou com chuva. A garotada que ia surgindo ganhava oportunidade no time, que disputava os extintos Campeonato do Frigonorte e Interclubes, que, aliás, nasceu no próprio River Cruz, em homenagem ao seu saudoso técnico e diretor Deminha, além de outros torneios em outros bairros e localidades. Pena que, como ocorre com freqüência, os vínculos foram se desfazendo, “motivados por motivos” que ninguém sabe ao certo quais. Depois veio o Cruz Moc, que nasceu no Vera Cruz do Esplanada, onde jogamos por algumas temporadas.

Mas não poderíamos nos esquecer do time do Grupo de Jovens Amigos de Cristo (JOAC), que também tinha sua versão feminina. As equipes agregavam motivação à missão religiosa-social, que contava ainda com grupo de teatro. Por sua vez, Montes Claros tinha inúmeros grupos de jovens e, anualmente, acontecia o chamado Encontrão, com todos os grupos de jovens reunidos em dois dias de muitas atividades, entre elas apresentações culturais, reflexões, debates e brincadeiras, que serviam para municiar as tarefas rotineiras dos missionários.

Pena, mais uma vez, que os vínculos foram se desfazendo. Acreditamos que não preparamos o terreno e não o semeamos como deveria para as gerações vindouras. O resultado, de um modo em geral, tem sido catastrófico. Sem campos, sem grupos de jovens e sem líderes, as gerações vindouras se enveredaram por outros caminhos, espinhosos, cheios de pedregulhos e perigosos. Alguns não conseguiram viver o furor da juventude e ficaram para trás, tombados sobre poças de sangue.

Mas há saídas para melhorar o cenário: o fortalecimento do esporte e criação grupos de jovens ecumênicos nas comunidades. Várias praças esportivas estão surgindo e outras sendo revitalizadas. Acreditamos que o município poderia também promover um trabalho de fortalecimento dos grupos de jovens e a criação de outros com missões não apenas religiosas, mas sociais, educacionais, culturais e formação profissional, inclusive com bancos de oportunidades para aqueles que querem sair do submundo das drogas e da criminalidade.

O “poder público tem poder” para isso. Basta querer. Que o próximo prefeito Humberto Souto volte os olhos para esta proposta.

 

(*) Jornalista

 

 

 

Para ler a coluna completa Assine aqui o JN Notícias

Comentários