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Atualizado em 10/10/2017

Acontece em política – Hélio Machado

Palanque eleitoral

O País enfrenta uma das piores crises hídricas de sua história, que afeta a todos os setores, com reflexos diretos na economia e em seu desenvolvimento. E o Norte de Minas se debate com este problema, que se agrava com o passar do tempo, sem uma resposta mais concreta do poder público estadual e federal para atacá-lo. Com este comportamento, permite-se o uso político mais escancarado da situação. A proximidade das eleições do próximo ano cria ambiente favorável para que a crise se transforme em literalmente em palanque eleitoral. E traz paraquedistas novamente à região para participar de reuniões de discussão da temática, sem nada a nos oferecer.

Talvez mais grave até do que a crise hídrica seja a falta de representação política regional em nível federal. Mesmo com expressivo colégio eleitoral de dois milhões de eleitores, o Norte de Minas não tem a capacidade suficiente para eleger uma bancada consistente em termos de quantidade e qualidade para defender seus interesses. Mas é bom que se frise que a culpa – e neste caso tempos que apontar culpados sim, até para chamá-los à reflexão – é dos próprios políticos, principalmente prefeitos e vereadores e, por fim, dos eleitores, responsáveis diretos pela escolha dos representantes políticos.

É justamente por falta de representação política que a crise hídrica chegou aonde chegou, com o risco iminente de faltar água para o consumo humano. A realidade é que não temos força política para cobrar, sequer exigir do governo federal, a liberação de recursos para viabilizar projetos de extrema relevância para atacar este problema, como a construção de barragens. Por conta disso, projetos das barragens de Jequitaí e de Congonhas não avançam. O primeiro elaborado há cerca de 40 anos e o segundo, seguramente, há mais de dez.

Além de garantir o abastecimento de água a Montes Claros, nos próximos anos, a barragem de Congonhas terá outro papel importante: perenizar o Verde Grande, um dos principais rios da região, com a perspectiva de aumentar a produção agrícola em seu entorno e de gerar, consequentemente, mais empregos e fortalecer a economia. Mas nada disso tem sido suficiente para sensibilizar o governo federal a disponibilizar os recursos necessários para tirá-lo do papel. As sucessivas reivindicações não encontram respaldo político.

O fator determinante para que cada região receba benefícios, é, seguramente, seu peso político. Se ela não o tem, nada recebe. É justamente o nosso caso, mas parece que não temos a capacidade de compreender isso. Sempre batemos à porta do governo federal, como eternos pedintes, mas ele se nega a nos atender, embora nossas reivindicações sejam legítimas. Prefere nos empurrar com a barriga, como se diz no popular, porque sabe que não teremos uma voz forte para cobrar da tribuna da Câmara dos Deputados, para dizer que fazemos parte deste País continental e que precisamos de apoio e atenção.

A discriminação de que somos vítimas ao longo do tempo não tem sido suficiente para mudar nosso comportamento enquanto eleitores. Preferimos, inexplicavelmente, continuar apoiando paraquedistas, que não nos vai agregar qualquer valor mais à frente, até porque não têm compromissos com nossa região e nosso povo. Só aparecem por aqui, em períodos eleitorais, oferecendo vantagens, principalmente financeiras aos cabos eleitorais e depois, passada a disputa, desaparecem sem dar satisfação.

E a crise hídrica, agora, que atormenta a região, virou um motivo especial para justificar a presença de forasteiros por aqui, a se manifestarem de uma forma ou de outra, como se fossem salvadores da pátria. Entretanto, o interessante é que não trazem nada de concreto, que permita pelo menos visualizar uma luz no fundo do túnel capaz de apontar para a mudança da difícil realidade em que vivemos. Aparecem de mãos vazias, com o discurso eleitoreiro, sem qualquer consistência.

Além do que, a crise hídrica se tornou motivo para se realizar reuniões, audiências públicas, com a participação de pessoas ligadas ao setor para discussão da temática, sem qualquer solução, em que os políticos aproveitam para fazerem proselitismo. O plenário da Câmara Municipal de Montes Claros foi palco, nessa sexta-feira pela manhã, de audiência da Comissão Externa da Câmara dos Deputados para Situação Hídrica dos Municípios de Minas Gerais.

O que mais chamou a atenção foi à presença de dois deputados federais que não são da região, mas que, inexplicavelmente têm votos por aqui. Até que se prove em contrário, parece que não justificaram a votação. Mas vieram se manifestaram, fizeram seu comercial, de olho nas urnas. Contudo, podem se decepcionar desta vez, se o eleitor estiver disposto a votar consciente, no sentido de criar condições mais favoráveis para amenizar o quadro de dificuldades que se apresenta e cuja tendência é de agravar-se.

Depois da audiência na Câmara Municipal, a Comissão fez visita técnica à barragem da Copasa, em Juramento, em que se constatou seu baixo nível e um quadro que se agrava dia após dia, que pode avançar para o colapso no abastecimento. Além disso, também esteve na região do Rio Pacuí, em Coração de Jesus, onde a empresa iniciou a construção de adutora para complementar o abastecimento de Montes Claros, nos próximos anos. E o que de positivo trouxe para a cidade? Nada, absolutamente nada.

Aliás, não é de estranhar a exploração da seca do ponto de vista político e eleitoral. Ela sempre se constituiu em bandeira de campanha, responsável pela eleição de políticos em todos os níveis. Por conta disso, criou-se a cultura de se adotar medidas paliativas e paternalistas de convivência com a seca, com a distribuição de água chacoalhada, em caminhões-pipas e de cestas básicas, como se estivesse fazendo um grande favor. Assim, o poder público se recusa a inovar.

Apesar dos insistentes apelos, o poder público resiste em adotar medidas mais consistentes e duradouras para ensinar o norte-mineiro a conviver com a seca de forma menos traumática. Em agindo assim, dá uma demonstração de que não abre mão da bandeira de campanha em que se transformou a seca. Trata-se de uma fábrica inesgotável de votos que se pretende manter. É a exploração, anos a fio, da miséria, do sofrimento do povo, o exercício da tese de que os fins justificam os meios.

A crise hídrica, agora, se transformou, em palanque eleitoral. A tendência é de que a exploração política seja mais intensa, em função das eleições do próximo ano. Cada um quer aparecer para fazer média com a população. Mas o eleitor deve estar pronto para rechaçar a invasão dos forasteiros. A hora é de agir com coerência e bom senso e mirar as urnas para reforçar nossa fraca representação política, sobretudo na Câmara dos Deputados. Ou tomamos juízo ou estamos fadados a pagar um preço mais elevado em futuro próximo. Somos responsáveis pelo nosso próprio destino. A vida é feita de escolhas.

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