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Atualizado em 05/09/2017

Canto de página – Décio Gonçalves

AMIGOS INESQUECÍVEIS

Todos os dias, horas e momentos lembro-me de alguns amigos e até sonhando quando estou dormindo. Eram eles verdadeiramente fraternos e leais a toda a prova. Refiro-me a João Valle Maurício, Konstantin Christoff, Júlio Teixeira da Silva, o Julião. João Moura, Deusdedit Sá Miranda, todos falecidos. Graças a Deus, tenho muitos amigos atuantes. Cito o Luiz Gusmão Neto, este médico em exercício no seu consultório e no Hospital São Lucas. Ele é urologista de primeira prateleira. Em meus problemas de saúde, Gusmão visitou-me espontaneamente.

João Valle Maurício era médico cardiologista que cuidava de minha saúde e que nunca me cobrou uma consulta médica ou de uma visita em minha residência. Companheiro de Lions Tropeiro, Maurício tinha por mim uma consideração recíproca e uma demonstração de amizade. Eu fui um dos primeiros que ele convidara para bater um papo e sorver um gole na sua fazenda Lagoa do Peixe. No seu aniversario, me convidava e dois outros companheiros do Lions Tropeiro para comemorar a data: Ameriquinho e Reinine. Ele visitava quase todos os dias a redação do Diário de Montes Claros para cuidar da PÁGINA LITERÁRIA, que saía nas edições dominicais.

Dr. Maurício era responsável pela publicação. Era um escritor, autor de vários livros, cujas edições esgotavam. Na qualidade de primeiro reitor da Unimontes, realizou um trabalho edificante. Quando foi homenageado com a fixação de sua foto na parede na sala dos reitores, eu o acompanhei à universidade a seu convite. Maurício gostava de músicas sertanejas e criou o Conjunto Serestas, que tinha seu nome.

Konsta, como eu o chamo, desde O Jornal de Montes Claros, éramos amigos fraternais. Ele tinha amizade e muita confiança para tratar de vários assuntos excepcionais, reservados e confidenciais. Certa vez, faltei à redação do JMC, porque estive doente por uma moléstia.  Konsta ficou sabendo e, preocupado, foi à residência de mamãe onde com ela morava e meus irmãos. Informando-o de meu caso, estava sofrendo com problema na hemorróida. Imediatamente, levou-me no seu carro para a Santa Casa e logo fui operado por ele, que era especialista. Depois de uma semana internado no hospital, deu-me alta. Esse fato aconteceu em 1958, perfazendo 59 anos do procedimento que ele realizou com sucesso.

Tenho na minha casa uma caricatura minha que ele fez já na redação do Diário de Montes Claros, quando eu redigia uma notícia na velha máquina de escrever sem que eu percebesse. Quando terminei de fechar as notícias apanhadas na minha ronda, o seu trabalho também estava pronto. Konstantin foi um dos mais famosos médicos de Montes Claros. Adotou uma técnica cirúrgica própria que ele realizava na úlcera do estômago do paciente. Desenhista e pintor de quadros, seus trabalhos foram expostos em Belo Horizonte Rio de Janeiro e em São Paulo. Hoje, suas obras são comercializadas por colecionadores e especialistas. Um deles é Enock Sacramento, outro amigo em comum de várias décadas.

Médico operador da Santa Casa de Montes Claros, Konstantin criou o logotipo do hospital adotado pela diretoria da época. Era uma homenagem que fez à Irmã Beata. Ele também é autor de uma estátua que foi instalada e inaugurada na Praça Honorato Alves, em tributo à religiosa. Companheiro da Revista Encontro, foi ele quem escolheu o nome da publicação. Em todas as edições, Konstantin participava da elaboração das capas, fazia os desenhos dos anúncios e respondia às cartas dos leitores. Esse artista enriqueceu a Revista Encontro, que foi muito avançada na época.

Julião, amigo e colega do Tiro de Guerra, unidade do Exército, um craque em futebol que não se profissionalizou em clubes famosos de Belo Horizonte, Cruzeiro e Atlético, por proibição de sua família. Na época, jogador de futebol era mal visto. Júlio Teixeira da Silva trabalhava na loja de seu pai, que funcionava nos fundos do Mercado Municipal. A 50 metros, Júlio me encontrava dentro do balcão na Venda dos Meninos, que meu pai Adelino adquiriu essa mercearia e entregou-me a mim e ao Dermeval, irmão mais velho. Nós explorávamos o comércio para termos renda para cobrirem as despesas de hotel e estudos no Instituto Norte-Mineiro de Educação.

Os então garotos tiveram uma experiência saudável e aprenderam muito com as atividades comerciais. Este escriba, que seria no futuro longe de pensar, ocupou seu tempo ocioso servindo ao Exército Brasileiro, através do Tiro de Guerra 87. Essa unidade, anos depois, foi extinta em Montes Claros, com a instalação do 55º Batalhão de Infantaria do Exército. Júlio Teixeira da Silva, entre outros atiradores de nosso tempo do Tiro de Guerra, foi um amigo verdadeiro, sincero e leal a toda prova. Em seus horários de folga da loja São Silvestre, ele se dirigia toda dia à Venda dos Meninos e este mais novo é quem o recebia nos encontros diários para colocar a prosa em dia.

O autor desta crônica e Júlio eram companheiros e freqüentadores assíduos da famosa Rua 15, onde à noite participavam do saudável “footing” de moças e rapazes andando para lá e para cá em busca de eventuais namoros. Júlio estava apaixonado por Moema, uma loura linda e encantadora, com quem SE encontrava na Rua 15 para namorar ou ir ao cinema. Ele a chamava de Loura e contava ao amigo que algum dia realizaria seu sonho de se casar com Moema. E isso aconteceu e esteve sempre junto com ela até seu falecimento.

 

 

Homenageando os meus amigos, encerro esta crônica com alguns versos do poema de Carlos Drummond de Andrade.

E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou

o povo sumiu,

a noite esfriou

e agora, José?

E agora, você?

E agora, José?

Sua doce palavra,

Seu instante de febre

Sua gula e jejum,

Sua biblioteca,

Sua lavra de ouro,

Seu terno de vidro,

Sua incoerência,

Seu ódio e agora?

Se você gritasse,

Se você gemesse,

Se você tocasse,

Se você morresse...

Mas você não morre,

Você é duro, José!

Sozinho no escuro

Qual bicho-do-mato,

Sem teogonia,

Sem parede nua

Para se encostar,

Sem cavalo preto

Que fuja a galope,

Você marcha, José!

José, para onde?

 

(*) Jornalista aposentado, inscrito no Ministério do Trabalho sob o nº 15.276/70, Diretor e fundador do Diário de Montes Claros e da revista Encontro, extintos.

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