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Atualizado em 11/07/2016

Entre o passado e o presente, o campo e a cidade...

Lá se vão muitos anos. Jeep, Rural, F-100, F-400, C-10, caminhões Chevrolet, NV, Alfa Romeo e Mercedes-Benz cara chata, entre outros modelos, ainda trafegavam por nossas ruas. Tínhamos como passa-tempo ficar contando os carros que passavam pelas largas pistas da Avenida Geraldo Athayde, ainda com canteiros com gradios de ferro. O canteiro que hoje abriga o busto do ruralista Lindolfo Laughton ainda não existia, assim como o majestoso Clube da Sociedade Rural. Naquele espaço, havia várias casas de adobe, umas na parte da frente, outras nos fundos, onde também tinham muitas árvores frutíferas, principalmente mangueiras e pitombeiras. Morávamos numa das casas da frente.

Ainda mais no fundo, tinha o muro do Parque de Exposições João Alencar Athayde, onde memoráveis festas agropecuárias aconteciam de quatro em quatro anos, como a Copa do Mundo. Na verdade, era o nosso verdadeiro parque de diversões. Numa casa logo na entrada, à direita, moravam seu Carlos e Aparecida, nossa mãe de leite, com os filhos Vânia, Vaneide, Ângelo, Vanusa, Carlinhos e Andréia. Se o apelidasse de parque das mangueiras não seria exagero nenhum. Havia pés de manga, de todas as qualidades, por todos os lados. Ainda tem, mas antes tinham mais. No terreiro da casa, Seu Carlos e Aparecida cultivavam hortas, verdejantes como a Amazônia.

A portaria estava sempre aberta à nossa visitação, afinal nossos pais João Lima e Violeta eram compadres do casal morador, gente boa lá das bandas da Fazenda Bolívia, hoje Haras Travessia, de propriedades de Gentil e Messias Dias, pais de Dezinho, Daul, Dardier, Afonso, Antônio, Maria José (Déia), Maria Luiza (Luizinha), Paulo Afonso e Juliana Dias. Na casa velha, o velho telefone preto era o meio de comunicação entre o campo e a cidade. Apesar da franquia o ano inteiro, costumávamos ganhar tempo saltando o muro do quintal de casa para brincarmos nas dependências do parque, principalmente nos currais. Claro, nas horas das refeições e dos estudos, voltávamos para casa, já com planos para o dia seguinte.

João Lima era motorista dos Dias e sempre nos levava à roça para memoráveis passeios, passando pela famosa Fazenda Vaca Brava, do lendário Osmane Barbosa, avô do presidente da Sociedade Rural de Montes Claros, Osmani Barbosa Neto. Êta saudade do Cocho de Mel, um pedaço da Amazônia com vitórias-régias no meio do sertão, que a seca levou e não trouxe mais. Daquela região vinham muitos animais e produtos para a Exposição Agropecuária de Montes Claros. Daquelas bandas da Vaca Brava também vinham muitos peões para os inesquecíveis rodeios no parque, onde já reinava um senhor cidadão chamado João Lopes de Souza, mais conhecido como João Binga (foto). Era um dos nosso heróis...

João Binga se tornou uma lenda e seu nome era lembrado e propagado por todas as partes, afinal montava cavalos, burros e boi brabos e era duro na queda. Em torno da pista gramada no centro do parque, onde hoje ocorrem os shows, multidões se amontoavam para ver os rodeios e os shows de João Binga e companhia. Crianças, entrávamos entre as pernas dos adultos para assistirmos aos espetáculos. Ninguém queria perder uma cena sequer. Às vezes, um boi bravo jogava o peão no chão e se jogava sobre o público na cerca e saía desembestado pelas pistas de asfalto no meio do povão até ser recapturado.

Mas não eram apenas João Binga e seus filhos Noca, Vilmar e Dema Fumo que davam show na hoje Expomontes. A Companhia Edmundo Queiroz tinha presença cativa na festa, que contava com locução do saudoso Elias Tavares e animação de Gelson Dias, que fazia ecoar pelos ares de Montes Claros a sua marca registrada “cutuca, nego duro, cutuca nego duro...”. Edmundo Queiroz era um showman, um ás das laçadas. Laçava os animais em movimento com as mãos e também com os pés. Além disso, encantava a platéia com seu cavalo amestrado, que obedecia tudo que ele ordenava e ainda deitavam e rolavam no gramado, para delírio do público.

Mas o mágico universo da Exposição tinha outros encantos, como apresentação da Esquadrilha da Fumaça fazendo maravilhas no nosso céu e saltos de pára-quedismo. Os pára-quedas ainda eram redondos e os pára-quedistas não tinham tanto controle como têm com os retangulares. Por isso, nem sempre os saltadores caíam na mosca no centro do gramado. Bastava um vento mais forte para mandá-los para longe do parque. Às vezes, um pára-quedista caía em cima de uma árvore ou de uma casa. Teve um que foi parar lá no Bairro Renascença, que naquela época ainda era chamado de Tabajara.

Claro, a globalização levou a Sociedade Rural a mudar o modelo da Exposição, mas quem viveu aqueles sente saudades da degustação nas velhas barracas, dos parques de diversões com a gorila Monga, do trem fantasma, do tobogã, das bancas de apostas com escudos dos times de futebol. Você apostava num time e jogava uma bola num tablado com vários escudos. Se ela parasse sobre o escudo da sua equipe, você faturava uma grana. Havia ainda as bancas de argolas para você tentar laçar garrafas de bebidas, maços de cigarros e outros prêmios. Alguns deitavam o cabelo, outros voltavam pra casa com as mãos abanando e os bolsos vazios.

Claro, os shows eram bem sertanejos, mas com espaço para outros gêneros musicas. Mas alguns artistas tinham quase que cadeira cativa na festa agropecuária, como Sérgio Reis e o gaúcho Flecha dos Pampas com seus repentes. Não poderíamos nos esquecer dos shows com as Mulatas do Sargentelli, quando alguns rapazes eram convidados para sambar com as voluptuosas no palco. Não podiam tocá-las, é claro, apenas deixá-las balançar suas abundâncias a centímetros dos embasbacados voluntários. Fazia muito frio na época. Ou melhor: gelava. Mas diante de tanta fartura rebolando à sua frente, os convidados suavam como tiradores de espírito.

E lá se vão muitos anos de saudade. Anual, já há algum tempo, a Exposição Agropecuária de Montes Claros chegou à sua 42ª edição, enfrentando realidades distintas, em meio a um cenário de seca braba e crise econômica. Mas como bem gosta de repetir o presidente da Sociedade Rural, Osmani Barbosa Neto, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, parafraseando o escritor Euclides da Cunha, de “Os Sertões”. E assim vai enfrentando e superando os desafios. Porém, fica aqui uma sugestão para o próximo ano: uma noite tipicamente caipira, com orquestras de violas e violões, sanfoneiros, repentistas e com duplas e trios, genuinamente, caipiras. A festa do campo na cidade evoluiu, mas não pode perder a sua essência.

 

George Nande – Cronista

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